ALCACO & CULTURAHISTÓRIA

JESCO VON PUTTKAMER: O SERTANISTA QUE ESCOLHEU GOIÁS E ADOTOU OS ÍNDIOS – ESPECIAL, POR NILSON JAIME

 Por Dr. Nilson Jaime – Imagem retirada do documentário “Minha vida, minha câmera”.

Recebo do doutor Altair Sales Barbosa – importante nome da antropologia brasileira hodierna -, o documentário Minha vida, minha câmera, com a seguinte recomendação: “Estimado professor, quando tiver um tempinho, assista a este vídeo. Compensa!” .

Como o protagonista do documentário Jesco Von Puttkamer (1919-1994), será patrono de uma das cadeiras do Instituto Bernardo Élis (Icebe) , – por ter vertido para o Alemão o conto Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá, de autoria do imortal da ABL -, aproveitei uma madrugada para assistir  ao “média” metragem.

E compensou mesmo!

O documentário, de autoria da jornalista Lisa França, é uma realização do Instituto Altair Sales, e está disponível no YouTube.

Nascido carioca, em 1919, Jesco Von Putkamer era filho de uma rica família alemã que imigrou para o Brasil durante a primeira Guerra Mundial.

Jesco abriu mão de uma grande fortuna e de dois castelos na Alemanha, pertencentes aos descendentes do Barão Puttkamer, para permanecer no Brasil, onde se tornou documentarista.

Seus pais e outros imigrantes ajudaram a colonizar o Paraná, mas se radicaram posteriormente em Goiânia, onde produziam hortaliças e mudas de frutíferas enxertadas.

Estudava na Alemanha quando eclodiu a Segunda Guerra. Foi preso e quase fuzilado como desertor, por se negar a lutar. Seu irmão mais novo não teve a mesma sorte.

Acompanhou e fotografou o Julgamento de Nuremberg e tornou-se Cônsul do Brasil na Alemanha.

Na companhia dos três irmãos Villas-Boas, singrou os rios da Amazônia, filmando com sua câmera os primeiros contatos com dezenas de tribos do Xingu e de todo o Norte do Brasil.

Farta documentação cinematográfica foi produzida durante quatro décadas de incursões sertanistas e indigenistas.

Produziu material para sete documentários da BBC inglesa e da americana National Geographic.

Os documentários que antecediam aos filmes principais nas sessões de cinema no Brasil, na década de 1970 – que mostravam os irmãos Villas-Boas contatando tribos na Amazônia -, são em grande parte da lavra de Jesco.

Por sua produção cinematográfica, com milhares de horas de gravação da vida e do cotidiano de 62 sociedades indígenas, Jesco é considerado o fundador da antropologia visual no Brasil.

Sua obra audiovisual é reconhecida pelo IPHAN e Unesco.

Depoimentos dos sertanistas Cláudio e Orlando Villas-Boas, Apoena Meirelles, e dos professores Acary Passos, Altair Sales Barbosa e Ivo Mauri, da Reitoria da então Universidade Católica de Goiás (UCG), onde Jesco Von Puttkamer recebeu o título de “Doutor Honoris Causa”, pontuam o documentário, quase todo com filmagens originais produzidas pelo sertanista.

A propósito, existe na PUC-Goiás, sucessora da UCG, o Centro Cultural Jesco Von Puttkamer, dedicado a atividades de extensão nas áreas de arqueologia e antropologia.

O melhor do documentário fica para o final, com relatos e filmagens dos tensos índios Uru Eu Wau Wau em contatos com os sertanistas pela primeira vez, após atacar o acampamento dos pesquisadores por 17 madrugadas seguidas.

Falecido em Goiânia no ano de 1994, sem sucessor, deixou seus bens para o Instituto Indigenista Barão Von Puttkamer, a fim de beneficiar os índios, a quem dedicara sua vida.

Com sua indicação para patrono, o Instituto Bernardo Élis homenageia um grande desbravador da Antropologia.

Indico o documentário, que pode ser acessado no link abaixo e visto na página Vídeos do Portal Valdon Varjão.

https://www.youtube.com/watch?v=CjMt98I4buo

Nilson Jaime – Mestre e doutor em Agronomia, escritor, historiador e pesquisador, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), Presidente da Academia Palmeirense de Letras, Artes, Música  e Ciências  (Aplamc), Conselheiro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), Vice-Presidente do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (ICEBE).

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Comments (1)

  1. Ótimo artigo!

    Conheço um pouco dessa história, através do professor Mário Arruda.
    Excelente!

    Profª Vera Lúcia Alves Mendes Paganini – Goiânia – GO

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