ALCACO & CULTURA

EROTILDES MILHOMEM E SEUS SONHOS DE MENINA-MOÇA

Por Erotildes Milhomem – Cadeira 21 ALCACO

Das recordações de minha infância, muitas estão presentes de maneira mais intensa em minha vida. Imagine: duas menininhas simples da roça, gêmeas, recitam alegremente um poema, durante a solenidade de inauguração de uma escola no então povoado de Mato Verde, hoje a progressista cidade de Luciara. Era a inauguração do Grupo Escolar Padrão e estavam presentes diversos políticos e autoridades de Barra do Garças, entre eles Valdon Varjão, que ficou muito impressionado com a desenvoltura daquelas duas meninas, criadas ali onde praticamente ainda era uma aldeia dos índios Karajás.

Valdon Varjão se dirige à Mestra Adauta, professora das meninas e pergunta:

— De quem são essas meninas?

— São filhas do compadre João Irineu, morador daqui.

— Quero conversar com ele, essas meninas precisam continuar os estudos, pois são muito inteligentes.

Eu era uma dessas meninas. Meus olhos brilharam ao ouvir aquilo e meio coração se encheu de expectativas. Poderia dar início a meus sonhos de estudar e ser professora.

Após os compromissos com a inauguração, Valdon se dirigiu à minha casa e falou para meu pai que gostaria de ser nosso padrinho, para assim poder dar a oportunidade a mim e à minha irmã de continuar os estudos em Barra do Garças.

Não sei se foi por zelo, cuidado ou proteção, mas meu pai recusou veementemente a oferta. Não admitia o fato de suas filhas serem retiradas de casa, ainda que por uma causa interessante, que poderia ser determinante para o futuro delas.

Minha frustração com a negativa de meu pai foi muito grande, afinal, eu sempre quis estudar e realizar o sonho de ser professora. Mas pensei comigo: eu quero, eu posso, eu vou.

Era o ano de 1945 e eu multipliquei meus esforços, trabalhei muito, até conseguir adquirir o valor de Um Conto de Réis, justamente o preço da passagem de barco do Mato Verde até Barra do Garças, onde morava Valdon Varjão.

E assim, no dia seis de junho de 1947 quando o “barco dos garimpeiros” aportou em Mato Verde, eu estava preparada e apesar de muito emocionada, com o coração apertado e sem conhecimento de pai, mãe, avó e oito irmãos, deixei a casa paterna num só choro, num só alarme e peguei esse barco. Com dez dias de viagem cheguei em Barra do Garças.

Fui direto à residência de Valdon Varjão, que juntamente com sua esposa, a querida e amada Rosarinha, se tornaram meus padrinhos, me acolhendo como filha. A primeira providência que tiveram foi me matricular no Colégio Cristino Côrtes.

Naquele lar, acolhida e tratada como filha, fui mesmo muito feliz. Meus padrinhos Valdon Varjão e Rosarinha me encaminharam na vida, possibilitaram que eu pudesse realizar meu grande sonho e assim, voar nas asas do meu destino.

Eu sou uma dentre tantas pessoas que Valdon Varjão ofereceu sua casa, deu oportunidades e encaminhou na vida. Com o coração cheia de gratidão, estou eu aqui. Me tornei Professora, Escritora, Artista Plástica, fui Vice-prefeita de São Félix do Araguaia, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Mato Grosso – Núcleo São Félix do Araguaia, Diretora de Honra do Museu Municipal, co-fundadora do GEA (Ginásio Estadual Araguaia) e membro fundador da Academia Letras, Cultura e Artes do Centro Oeste – ALCACO, sediada em Barra do Garças, onde com muita honra, orgulho e alegria, ocupo a cadeira 21.

Drª Malba Thania, Erotildes Milhomem e acadêmicas, durante solenidade na ALCACO. Imagem: página pessoal Facebook

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