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MATÉRIA ESPECIAL: ENTREVISTA COMANDANTE ELVISSON TAVARES – PROJETO “CONHECENDO A AMAZÔNIA”

Da redação – Imagens: Divulgação Comandante Elvisson Tavares

O comandante Elvisson Tavares, com muita luta e determinação, conseguiu realizar um sonho de criança, que também é o sonho de muitos jovens: se tornar piloto comercial. Após conseguir o Brevê, depois de alguns anos iniciou sua trajetória profissional na empresa Ortiz Táxi Aéreo, de Rio Branco no Acre, onde diariamente sobrevoa a região onde nasceu, vive e venera: a Amazônia. E ao criar um canal no YouTube, “Voando na Amazônia”, com seu jeito tranquilo, simples, inteligente e muito verdadeiro tem alcançado um número cada vez maior de inscritos – nesse momento próximo aos cem mil –  além de milhares de visualizações a cada vídeo que posta.

Aviação é sempre um tema que desperta muito interesse. E Elvisson Tavares uniu o fascínio da aviação com o tema Amazônia, produzindo e publicando vídeos de pousos, decolagens e voos sobre o místico e fascinante pulmão do mundo, onde traz assuntos como segurança de voo, detalhes regionais, a solidão e os riscos de um voo noturno e outros assuntos que fazem com que seu canal mereça o sucesso que tem.

Recentemente, passou a divulgar o Projeto “Conhecendo a Amazônia – Expedição à Serra do Divisor”, que concebeu, planejou e formatou há alguns anos, a partir do conhecimento adquirido em suas vivências na região amazônica em que propõe soluções factíveis e aceitáveis para melhorar preservar a região, onde o principal componente é o respeito ao homem amazônico, ao ribeirinho, ao cidadão nativo, esquecido e quase sempre fora das estatísticas, planos e políticas públicas. Gente que mora no interior de um Brasil carente sob todos os aspectos e sofre com distâncias e até com o abandono. Gente que só conhece a ação do estado, através de seu braço forte quando em nome da lei, tratam inocentes e culpados sob o mesmo diapasão.

Com dez anos de atuação na aviação, Elvisson Tavares é um dos mais experientes comandantes em atuação na região amazônica. No intervalo entre um voo e outro, concedeu essa entrevista, quando fala do projeto “Conhecendo a Amazônia” e das peculiaridades de seu trabalho na Amazônia.

O PROJETO “CONHECENDO A AMAZÔNIA”

O projeto “Conhecendo a Amazônia – 1ª Expedição: Serra do Divisor” nasceu no momento em que eu, ainda muito jovem comecei a ter contato com a natureza, e como sempre tive o sonho de me tornar piloto, de maneira natural isso ficou dentro de mim desse a infância.  Nasci em Cruzeiro do Sul, no Acre, uma cidade que possui inúmeros atrativos, muitos encantos naturais e possibilita um contato muito próximo com a natureza, ali muito resplandecente, viva, com muitos rios, muita floresta. Deus me possibilitou a realização desse grande sonho, que era ser piloto de avião, e a partir do momento em que eu tive a oportunidade de entrar na empresa da qual hoje eu faço parte do quadro, a Ortiz Táxi Aéreo, tive a oportunidades que poucos seres humanos têm, que é de sobrevoar, de viver no dia a dia com a floresta amazônica ali, logo abaixo da aeronave.

Assim, faço minhas observações, onde consigo ver e perceber detalhes que poucas pessoas conseguem, e talvez, jamais conseguirão ver, a não ser através de conteúdos como os que rotineiramente trago para o Canal “Voando na Amazônia”, onde dentre outras coisas, mostro a exuberância da região amazônica.

Com o passar dos anos, diariamente voando sobre a floresta, me veio a necessidade de mostrar a importância e mostrar mesmo o que que é a floresta amazônica. À medida que intensificava meu trabalho fui tendo contatos com cidades isoladas, com povos que moram no meio da floresta, que realmente vivem em quase total isolamento, e isso me despertou ainda mais a vontade de mostrar suas realidades, como vivem, quais são dificuldades e necessidades mais urgentes, para conseguirem melhor qualidade de vida, mesmo morando no meio da Amazônia. Particularmente, creio que eles vivem até muito felizes, porque essas comunidades, essas pequenas cidades conseguiram se desenvolver ali no meio da Amazônia de acordo com suas peculiaridades e de certa forma, estão protegidas. São cidades que se vive como há trinta anos, onde o cidadão dorme com a janela ou com as portas abertas, sem medo de ser roubado.

Mas quando falo de buscar melhorar a qualidade de vida desses moradores é mostrando suas dificuldades, como por exemplo, para ter acesso à saúde, à educação.

Em 2011, ao intensificar os voos aqui na Amazônia, comecei a ver melhor esses detalhes, a olhar mais para a floresta, ver o quanto ela, em algumas regiões está sendo agredida. Também tenho a intenção de mostrar para o poder público, para que possa fazer alguma coisa para proteger a Amazônia. Não se trata de ações que impeçam o povo amazônico de levar sua vida, obrigando-os a praticamente não poder fazer nada. Uma das ideias é desenvolver alguns aspectos voltados ao fomento do turismo, que deem sustentabilidade e rentabilidade para aquele povo, que eles criem a consciência de manter a nossa floresta preservada.

Não adianta a gente só dizer assim: “você não pode derrubar uma arvore”, e não justificar o motivo, as razões plausíveis para que aquele seringueiro, aquela pessoa simples que mora na floresta possa compreender. É melhor a arvore em pé do que derrubada, isso é fato, mas para isso, a gente tem que dar condições e desenvolver projetos para esse povo realmente ver que é melhor manter a floresta o mais intocada possível.

O fato de trabalhar como piloto comercial torna muito mais fácil a conclusão desse pensamento, pois viajo para todos os quadrantes da região. Minha profissão obrigatoriamente faz com que eu chegue até esses locais distantes. Foi quando decidi que mostraria essas realidades para o Brasil e o mundo. Mostrar as realidades da nossa Amazônia, o quão importante ela é para o povo brasileiro, que muitas vezes desconhece a riqueza natural e humana que tem.

Quando a sociedade consegue perceber a importância que tem, o tesouro que é a floresta e seu povo, deve passar a protegê-lo, divulgá-lo e uma das opções de preservação é o fomento ao turismo em um modelo autossustentável.

EXPECTATIVAS – REPERCUSSÕES – INTERESSE DO MUNDO NA AMAZÔNIA

Hoje o mundo inteiro tem interesse na Amazônia pelo fato de ter a maior floresta tropical do planeta, a maior biodiversidade do planeta, além de possuir água doce em abundância na natureza. A grandes reservas de água doce do planeta estão aqui na Amazônia.

Desde que anunciei o projeto, muitas pessoas têm entrado em contato comigo para ajudar de alguma forma o projeto e eu agradeço a cada uma delas. Isso me traz alegria e forças para desenvolver mais e mais o Projeto “Conhecendo a Amazônia”.

Já tenho planejado o roteiro e os objetivos da primeira expedição, que será a etapa “Conhecendo a Serra do Divisor”, que realizarei assim que possível.

Sobre o interesse do mundo sobre nossa Amazônia é importante salientar que muitas vezes, países que criticam e denunciam que estamos desmatando, muitos já devastaram suas próprias florestas, e agora querem vir ditar as regras. É justamente em cima desses aspectos que eu quero mostrar a importância que tem de fazermos o dever de casa, de mantermos a nossa floresta em pé e sermos exemplo para o mundo.

Com esse projeto conhecendo a a Amazônia eu vou ter a oportunidade, se Deus assim me permitir, de mostrar a realidade hoje da nossa Amazônia e ainda mais: será que nós estamos devastando de verdade a nossa Amazônia? O quanto disso é verdade, ou o quanto que é inverdade?

Quando se fala em sustentabilidade, de manter a floresta em pé, devemos lembrar que existem milhares, centenas de milhares de pessoas morando semi-isolados no meio da floresta, e você sabe que onde mora o ser humano, consequentemente em sua volta ele cria uma desarmonia com a natureza. Mas isso pode ser mudado. Temos que mudar a cultura de apenas dizer: “Olha, nós temos que manter a nossa floresta em pé”, sem dar meios para aquela sociedade, aquele povo conseguir tirar seu sustento, sobreviver sem derrubar a floresta, pois quase sempre quando se fala de ecologia, se esquece do ser humano, do povo que ali vive.

Ao se falar em ecologia, é preciso levar em consideração o fator humano, colocar o povo dentro dessa ecologia. Se não criarmos projetos sustentáveis, como a opção sugerida de fomento ao turismo sustentável. Por necessidade e sobrevivência o povo aos poucos vai devastar. Isso acaba sendo uma consequência natural do ser humano vivendo dentro da natureza. E isso lentamente vai devastando, derrubando parte da floresta.

Através desse projeto quero levantar, mostrar para o mundo e para o brasileiro a importância da cultura do turismo, de receber bem o turista do Brasil e do exterior, que quer ver tanto a floresta preservada. Que possam vir aqui gozar suas férias, e encontrar pousadas maravilhosas que disponibilizem passeios de barco, passeios pela floresta, exposições de arte e deixem aqui riquezas que vão gerar qualidade de vida ao nativo da região.

Através desses projetos focados em turismo, conseguir-se-á manter floresta em pé, preservada, e dando meios de subsistência ao povo; não apenas querendo que a floresta fique em pé sem a atenção devida para os povos que aqui vivem.

A partir dessas observações e divulgação, espero contribuir no desenvolvimento e aplicação de projetos para a Amazônia, projetos autossustentáveis, que estimulem a preservação, mas ao mesmo tempo, deem a devida valorização aos povos que aqui vivem.

AMPLIAÇÃO DO PROJETO

Espero que essa primeira expedição do projeto “Conhecendo a Serra do Divisor” seja a primeira de muitas. Estou muito animado para essa primeira etapa, que farei sozinho, em uma pequena aeronave. O motivo de ir sozinho é, primeiramente me conectar com essa energia que vinda da floresta, para que possa passar uma mensagem para o Brasil e para o mundo muito mais transparente e fidedigna.

Tenho como objetivo, expandir o projeto e fazer outras expedições, visitando várias localidades da Amazônia. Essa primeira expedição será o pontapé inicial onde adquirirei conhecimento e detalhamento que auxiliarão na logística de projetos futuros. Quero levar a todo o mundo os ricos e fascinantes mundos da Amazônia, até para que o povo brasileiro ele perceba a importância da nossa floresta.

Nós vemos aí muitos países querendo ter parte aqui na Amazônia, então é preciso, como eu disse anteriormente, que façamos o dever de casa, que sejamos exemplo de preservação. Temos tudo para ser de fato uma grande nação, rica e poderosa nação. Não para oprimir ou para causar desarmonias, mas uma grande nação em se tratando de tornar cada vez o ser humano melhor e assim, passar esses valores para o restante do mundo. Somos um povo hospitaleiro, amistoso, temos essa grande capacidade de conhecer e conversar, diferentemente de outros povos, como da Europa, que são muito fechados.

Ao executar essa expedição até a Serra do Divisor tenho o objetivo de fazer registros importantes para que possa dar o start ao projeto “Conhecendo a Amazônia”. No roteiro, sairei de Rio Branco em uma aeronave pequena, com capacidade para somente um tripulante, voando baixo e próximo à floresta até Cruzeiro do Sul, de onde sigo de barco até o Parque Nacional da Serra do Divisor, na fronteira do Brasil com o Peru. Na volta, a certeza de trazer na bagagem imagens e registros fantásticos e únicos desses locais.

PECULIARIDADES DA AMAZÔNIA – COMO O PROJETO PODE COLABORAR.

A Amazônia é um lugar diferente de tudo que podemos já ter visto. Para uma pessoa nunca colocou os pés na Amazônia, nunca sobrevoou, não tem a noção da importância e da diversidade que temos. É um território muito grande, uma imensa área territorial dentro de nosso país e que abrange vários outros países ao redor do nosso. A maior parte está dentro do nosso país.

E a Amazônia possui áreas muito diferentes. Aqui no Acre, por exemplo, nós temos algumas áreas montanhosas, com morros de pequeno porte, com a exuberância de arvores gigantescas. Árvores com cerca de oitenta metros de altura. Já quando se sobrevoa o estado do Amazonas, percebemos áreas com arvores baixas e áreas alagadas, com abundância de águas, São regiões muito diferentes, muito embora, todas elas façam parte da Amazônia.

Com a realização do projeto “Conhecendo a Amazônia” a conscientização para preservar de maneira sustentável a Amazônia, irá crescer muito. Quando as pessoas assistirem aos diversos registros que farei e disponibilizarei no Canal “Voando na Amazônia” no YouTube, irão sentir vontade e prazer em discutir, debater preservação.

Porque que eu falo isso? Porque hoje, quando se fala de preservação – é o que eu tenho falado em todas as perguntas anteriores – é preciso incluir o povo natural da região, que vive aqui. Disse e repito: enquanto as políticas de preservação não incluírem de forma direta o povo nativo, não se obterá sucesso em preservar de maneira efetiva a floresta, nunca conseguiremos fazer com que o povo compreenda esses aspectos da preservação.

Que se reconheça que como seres humanos, muitas vezes somos falhos, mas sempre podemos corrigir a trajetória ao longo do caminho, e é justamente isso o que eu proponho, que o povo brasileiro entenda, que nos ajude a trazer meios para que se possa conhecer mais profundamente a importância da nossa Amazônia.

COMO PRETENDE MOSTRAR AO MUNDO OS REGISTROS DO PROJETO

Inicialmente, irei mostrar os registros feitos na expedição à Serra do Divisor no Canal “Voando na Amazônia”, do YouTube, mas isso é algo que ainda está em aberto. É claro que muitas coisas podem surgir ao longo desses próximos meses. Se alguma emissora, meio de comunicação, provedora de streaming como por exemplo a Netflix, ou outro canal que se interesse e queira mostrar esse material, podemos fazer parcerias. Eu espero o projeto tome uma dimensão bem maior, que ultrapasse as fronteiras do Canal Voando na Amazônia.

PANDEMIA E PROJETO

O projeto está planejado, pronto. Infelizmente, passamos por este problema em nível, mundial, mas tenho certeza que logo poderemos dar continuidade e levar normalmente nossas vidas. Espero que isso acabe logo. No momento, tenho que aguardar passar a pandemia, pois as cidades do interior do Acre, por prudência, estão impossibilitadas de receber pessoas. A maioria estão fechadas e não recebem pessoas de fora. Então, até que isso se resolva não posso executar essa expedição, pois vou passar por localidades isoladas. Até para proteger essas pequenas comunidades, pois você imagina a situação: nós que estamos nas grandes cidades já temos dificuldades para tratar essa doença, combater esse vírus, imagina como seria para um povo distante, que vive isolado no meio da mata. É para preservar a saúde desse povo, que devemos ter a consciência de adiar a expedição.

Que logo isso passe e que a gente possa iniciar o projeto, com a expedição à Serra do Divisor. Eu tenho certeza que será uma expedição maravilhosa.

Penso que, a partir dessa matéria, se consegue ter a noção da dimensão do projeto “Conhecendo a Amazônia”. Espero trazer com a realização desse projeto uma maior conscientização da importância do que é floresta amazônica e seu povo, não somente para o país, mas para o mundo. Principalmente como nós brasileiros devemos dar o exemplo e mostrar como se preserva. E que quando se falar de políticas de preservação, que não cometam o erro de não inserir o povo, o nativo que que vive no meio da Amazônia.

O Canal “Voando na Amazônia” no YouTube ele tem justamente o objetivo de trazer ideias e mostrar realidades, para que se trabalhe com base em fatos, não ilusões, por vezes totalmente fora daquilo que de fato existe.

TRAJETÓRIA COMANDANTE ELVISSON TAVARES

Elvisson Tavares é natural de Cruzeiro do Sul, no Acre, onde viveu até os 17 anos. Sempre teve o sonho de ser piloto de avião, e desde muito pequeno falava ao pai de sua vontade. Muito jovem, foi para a cidade de Itápolis, interior de São Paulo, como aluno em um dos melhores aeroclubes do Brasil, e após obter o brevê de piloto comercial, retorna a Cruzeiro do Sul, onde casou e viu nascer sua filha, hoje com quinze anos de idade. Mas, permaneceu um longo período afastado da aviação, atuando na área do pai, como fotografo e comerciante do setor de fotografia.

Um dia resolveu abraçar definitivamente a profissão de piloto comercial. Se atualizou em Maricá – RJ, onde fez as “rechecagens” e atualizou suas carteiras e licenças de piloto comercial e de volta ao Acre, foi morar em Rio Branco, onde conseguiu trabalho na empresa Ortiz Táxi Aéreo, onde está até hoje.

Segundo suas palavras, “Já são quase uma década aí, trabalhando nessa empresa, que me possibilitou conhecer muito a Amazônia.  Comecei na menor aeronave, um Embraer Corisco, onde fiz centenas de horas e assim, fui galgando degraus dentro da empresa. Fui passando por aeronaves maiores: voei Minuano, Sêneca II, Sêneca III, Navajo e atualmente trabalho em um Cessna C208B Grand Caravan, uma aeronave robusta, moderna e altamente confiável. Amo minha profissão e sempre procuro fazer o trabalho com esmero e dedicação. Comecei como piloto, ocupei o cargo de piloto chefe e hoje sou Diretor de Operações da empresa, além de fazer parte do quadro de tripulantes como comandante, voando diariamente.

Só tenho a agradecer a Deus por tudo o que tem acontecido, por tudo que Ele tem me possibilitado realizar. Sou muito grato a tudo”.

Por Paulo Rolim

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Comments (3)

  1. Maravilhosa entrevista com o comandante Elvison Tavares, natural de Cruzeiro do Sul, no Acre, onde viveu até os 17 anos e hoje realiza seu sonho com o Projeto :“Conhecendo a Amazônia”. A maior floresta tropical do planeta é a mais rica em biodiversidade, Parabéns! Fotos belíssimas!

  2. Bonita matéria.

    Muito se aprende lendo o que nos transmite o Comandante Elvisson Tavares.
    Parabéns ao Comandante Elvisson, Parabéns ao site, e Parabéns ao Paulo Rolim.

    Que o Projeto Conhecendo a Amazônia se complete comandante com sua garra e seu empenho, e nos traga muito mais conhecimento de um mundo que poucos conhecem, a Amazônia!

    Sucesso e que Deus seja sempre o seu Copiloto em todos os momentos por esses céus do Brasil.

    Grande abraço,

    Lobo das Estepes
    Lobodasestepes@msn.com

  3. Ótima matéria!

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