ALCACOARTE & CULTURA

ESPECIAL: ENTREVISTA DIVINO ARBUÉS

Da redação

Pela primeira vez, tive a satisfação de conversar diretamente com Divino Arbués. Conheço o talentoso artista mato-grossense através de suas canções, carregadas de lirismo e poesia.

É interessante como canção e artista se completam. Na entrevista, a voz plácida de Divino Arbués traz à lembrança noite de lua quarto-crescente iluminando o deslizar de águas tranquilas rio abaixo.

A seguir, confira detalhes de uma rica e profícua carreira artística, as dificuldades de ontem e de hoje, e a missão incessante de seguir levando alegria, música de qualidade e poesia ao mundo.

ORIGENS

Nasci de duas famílias musicais: Arbués e Nery. Meu avô materno tocava e escrevia música. Já familiares do meu pai faziam parte da Folia de Reis. Tive a felicidade de nascer dentro de duas famílias muito musicais. Assim, aos quatro anos de idade eu prestava atenção nos discos que meu pai tinha, e lembro de correr para a “beira do rádio” para ouvir programas inteiros. E quando eu ouvia uma música bem feita, ficava encantado.

CONTATOS COM A ARTE DA MÚSICA

 Comecei a aprender as primeiras notas musicais em um violão emprestado por uma vizinha. Depois, por volta de nove anos consegui comprar, na verdade, fazer uma permuta, e ter meu próprio violão. Aos onze anos pude estudar piano em Aragarças, onde tinha um padre holandês, conhecido como Padre Vicente, muito atencioso e dos meninos da minha turma da escola, escolheu alguns que, segundo ele, tinham o dom da música. Para ensinar, utilizava um método engraçado, mas interessante e eficaz: desenhava numa cartolina o tamanho real das teclas do piano, inclusive as teclas de sustenido e a gente fazia exercícios com os dedos nessa cartolina, imaginando as notas musicais conforme ele solfejava.

Ao aprender, toquei órgão bastante tempo nas celebrações da igreja e depois passei a tocar teclado em um conjunto musical. Foi quando travei conhecimento com um grupo de seresteiros onde tinha um “sete cordas” de São Paulo, Moacir, e outros músicos muitos bons. Eram uns senhores de primeira, um grupo de seresta de primeira. Aprendi muito, e tudo isso me influenciou, juntamente com canções internacionais, com destaque para os Beatles.

COMPOSITOR

Aos quinze comecei a esboçar algumas composições. Além disso, tive a oportunidade de participar de um coral, o que desenvolveu bastante minha musicalidade. Comecei a trabalhar muito cedo – tive até que ser emancipado, adquirir maioridade antes da hora – para que pudesse comprar e assumir o escritório de contabilidade em que trabalhava, já que que o patrão decidiu ir embora, mudar daqui. Com dificuldade consegui comprar. Comecei a dar aula no ano em que fiz 18 anos, e era uma correria, o tempo era escasso, pois trabalhava o dia todo no escritório e dava aulas a noite. Após os 19 anos decidi parar de dar aulas e assim passei a ter mais tempo. Foi quando comecei a me envolver mais intensamente com música.

BRASÍLIA E FESTIVAIS

Era época de muitos festivais e conheci um pessoal que integrava o Projeto Rondon, que à época atuava aqui na região. Eles diziam que as músicas que fazia eram diferenciadas e deram o maior incentivo. Um deles viabilizou a participação em um grande evento nacional em Brasília, e fui com o Grupo Araguaia. Ficamos em segundo lugar, dentre mais de trezentos inscritos. Vale lembrar que quem ficou em primeiro lugar foi uma jovem e talentosa cantora, de nome Zélia Cristina, que depois assumiu o nome artístico de Zélia Duncan.

Com isso, não paramos mais. Nossas participações em festivais na região, como em Jataí, Caiapônia e outras cidades passaram a ser constantes e sempre muito bem sucedidas. Em quatorze festivais ganhamos 26 premiações em diversas categorias, como letra, música, arranjos, essas coisas.

No ano seguinte, 1982, fomos pra São Paulo e resolvemos registrar em disco nosso trabalho. Gravamos um compacto duplo com as canções “Quarto Crescente” e “Passarinho do sertão”, “Nós” e “Última prece”. Foi um trabalho feito muito rápido, em apenas um fim de semana.

“Quarto crescente” estourou e tocou muito em Goiânia, Brasília, Cuiabá, Campo Grande e outros locais, e acabou dando o nome à principal e mais frequentada praia da região, que fica em Aragarças e para onde convergem os turistas que visitam a região, além dos moradores das três cidades irmãs – Aragarças, Barra do Garças e Pontal do Araguaia.

PROJETO PIXINGUINHA E ALMIR SATER

festival daqui já era muito concorrido, era bem maior e coincidia com a temporada de praia. Vinha gente de Goiânia, São Paulo, Brasília e o festival tinha um nível muito bom. Participavam muitos artistas de Goiânia, hoje reconhecidos.

Adquirimos projeção com esses festivais e em 1983 fomos convidados pra fazer o Projeto Pixinguinha, no Teatro Universitário em Cuiabá. Lá, abri o show do Geraldo Azevedo. Quando soube que na semana seguinte viriam Tetê Espíndola e Almir Sater, resolvi permanecer na capital. Foi assim que eu os conheci, e ainda mais, eles me convidaram a ir com eles pra Chapada dos Guimarães, onde pude mostrar minhas músicas em um gravador, na época, em fita.

Tinha um excelente musico, o Zé Gomes, maestro do Almir Sater, que tocava violino, aliás, tocava era tudo, Um grande instrumentista. Mostrei as composições e ele gostou muito do trabalho.

Na sequência, com o sucesso na edição regional, em Cuiabá, fomos convidados a representar o estado do Mato Grosso no “Pixingão”, no Rio de Janeiro.

SEQUÊNCIAS

Resolvi gravar novamente e procurei o Zé Gomes, que me chamou para ir para a casa dele, onde me hospedei. A casa do Zé Gomes era movimentada, muitos artistas passavam diariamente por lá e isso me proporcionou conhecer Paulinho Pedra Azul, Décio Marques, Doroti Marques, e outros.

À essa época intensifiquei minha relação de amizade com Almir Sater, depois disso, nunca mais perdemos o contato, tanto com ele quanto com Alzira Espíndola. Nas vezes que precisava ir a São Paulo, sempre ficava hospedado em sua casa, na Serra Cantareira.

Em 1987 a gente fundou uma entidade ecológica chamada CELVA – Centro Étnico-ecológico do Vale do Araguaia, quando conseguimos patrocínios para fazer o Primeiro Encontro Ecológico Musical, justamente no ano que deu uma ilha no meio do Rio Araguaia, o que foi maravilhoso: não ficou nem em uma cidade nem em outra. A ilha foi mais uma grande atração.

Nesse encontro conseguimos trazer 43 músicos, e foi quando eu conheci muita gente boa, muitos artistas. Tive a ideia de convidar o Almir Sater, que juntamente com a Alzira Espíndola participou do evento. Daí para a frente estreitamos mais ainda nossos laços e nunca mais a gente se distanciou. Almir Sater é de fato um grande e verdadeiro amigo.

MÚSICA E LITERATURA

Eu sempre gostei muito de literatura, li muita coisa desde pequeno, desde adolescente. Lia “O Pequeno Príncipe”, “Fernão Capelo Gaivota”, “Encontro Marcado” e muitos outros bons livros. Assim como lia, também escrevia.

Acabei escrevendo dois livros, um deles em torno das músicas que compunha. Meio que de repente notei que as músicas formavam um tipo de uma história, aí eu fiz com base nessas músicas o livro “Rio e serra”. Também gravei algumas músicas retiradas desse romance, que acabou por dar nome ao primeiro CD, quando do fim do vinil. Eram canções com base em pesquisas das figuras típicas dos pioneiros daqui, como o pescador, o garimpeiro, a lavadeira, o peão, enfim, por aí.

Apesar das dificuldades da divulgação, a paixão por música era maior e já tinha também o incentivo de pessoas que gostavam, que assimilavam meu trabalho.

SEQUÊNCIAS

Estou com músicas novas, prontas pra fazer um outro CD, ou melhor, um novo álbum, porque agora tudo está nas plataformas digitais (Spotify, Deezer, etc), onde já tem três discos meus – ainda vou subir o resto.

Com essa pandemia aí todos tiveram uma parada e é onde eu aproveito mexer um pouquinho com essa coisa do mundo digital.

Não parei de compor, tenho feito músicas, inclusive em parceria com João Ormond, um violeiro do Mato Grosso que mora em São Paulo, onde tá fazendo uma carreira muito bacana. A gente tem feito muitos trabalhos, ele gravou músicas nossas e minhas.

REGIONALISMO

Eu me tornei um artista “regional”, ou semi-nacional. E dou muito valor nisso, pois no Brasil, é essa a música que retrata a realidade local, a cultura dos lugares, a história.

É claro que a gente tem músicas que falam do mundo todo, que mesmo falando da nossa terra se tornam universais. Penso que esses músicos ditos “regionais” são o celeiro da cultura, da música brasileira.

Eu sei o meu papel de compositor, de músico regional. Eu sei e acho que isso contribui e vai contribuir ainda mais com a cabeça das pessoas, porque se a gente não fala em ecologia, nas coisas da vida, as pessoas acabam por ficar meio automáticas. Então eu acho isso, não só eu, mas amigos do Tocantins, de Goiânia, de Cuiabá e interior do Mato Grosso – e de todo o Brasil. São muito importantes fazerem esse “Brasil profundo” como dizia Gilberto Gil, que é o Brasil de verdade.

Me sinto gratificado, mesmo com as dificuldades, principalmente no tocante à divulgação, mas como já temos um bom público, se não dá de bancar e ter lucro, mas dá para fazer e produzir as músicas. E de ter o prazer de produzir, que na verdade é um ideal de vida, porque faz parte e é uma das coisas que mais me realiza. Poder compor músicas, que falam desde a região até as coisas do mundo todo.

ALCACO

Minha presença na Academia de Letras, Cultura e Artes do Centro Oeste muito me honra e é consequência do trabalho que fiz, uma extensão da música como arte, uma espécie de militância, como foi quando assumi por quatro anos a Secretaria Municipal de Cultura de Barra do Garças. Eu acredito que uma das coisas que mais faltam pra cidadania das pessoas evoluírem é cultura, de modo geral. As pessoas que têm acesso à cultura sabem respeitar aos outros. A paz tem a ver com cultura, é tanta coisa importante, o equilíbrio do ser humano. Infelizmente os governos não praticam isso, mas a gente como cidadão sabe que isso é muito importante, então a gente tem que fazer a nossa parte, por isso, sempre fui alguém que entendeu nesse sentido, não só na música, mas em outras manifestações. A academia me proporciona trabalhar ainda mais por cultura, fazer com que chegue às pessoas.

ADVENTO DA INTERNET

Pro músico independente, igual a mim e tantos outros pelo Brasil, a internet foi algo muito importante. Abriu a possibilidade de mostrar, produzir e levar alguma coisa diretamente às pessoas. Nosso trabalho raramente é tocado nas rádios, nas grandes mídias, então esse mundo digital, Facebook e outras plataformas, são muito importantes pra nós.

E a tendência e que isso aí transforme as coisas. Hoje já tem as web rádios então isso aí é uma revolução que tá em andamento e sinto que estamos apenas no início.

A única coisa que tem é que eu, por exemplo, não consigo ainda explorar todo o potencial, não somente eu, mas a maioria dos músicos não consegue ainda utilizar tudo aquilo que a rede oferece, mas foi um caminho direto que foi aberto, da gente com o povo; a internet se popularizou, então, tá sendo ótimo.

Hoje, no meu perfil do Facebook são praticamente quatro mil seguidores, já na fanpage passa de mil curtidas. E comecei há pouco o canal do YouTube, onde já tem quase 200 pessoas inscritas.

Aproveito a oportunidade e peço aos leitores que se inscrevam no meu canal do YouTube: Divino Arbués Oficial. Essa inscrição não custa nada, e é muito importante para um artista independente como eu, pois abre inúmeras e novas possibilidades.

Outra fonte de informação e conhecimento do meu trabalho na internet é através do blog Divino Arbués – Temas e literatura, que pode ser acessado no endereço: divinoarbues.blogspot.com

Penso que de certa forma a internet democratiza e possibilita o acesso à cultura de maneira bem mais ampla, porque ela tirou o poder central de sistemas arcaicos decidirem aquilo que se vê ou o que se ouve. Agora, você acessa e decide livremente.

AOS FÃS, AOS AMIGOS

Eu quero agradecer muito ao prestígio que dão ao meu trabalho. Considero muito importante para o artista receber energias positivas para fazer coisas boas. Motiva a continuar a produzir músicas de qualidade e não entrar na tal bolha do comum e do descartável. Fazer coisas verdadeiras, merecer o dom de criar que Deus nos deu. E mais um recado: eu acho que o mundo, o Brasil, Pontal, Aragarças e Barra, Goiânia, o estado do Mato Grosso e Goiás, precisam que as pessoas tenham atitude e não se deixem alienar, que exerçam sua capacidade de escolher aquilo que querem ouvir, que querem ler e até conhecer, ampliando e diversificando seus limites, rompendo barreiras e fronteiras.

São duas as palavras que eu acho fundamentais: uma, conhecimento. A pessoa tem que conhecer o máximo possível, ter autoconhecimento, pensar, entender as coisas existenciais.

A outra é atitude. É atitude que vai dar oxigênio pra você viver seus sonhos, fazer a sua realidade, é isso que é importante para a pessoa se realizar de verdade como ser humano, como cidadão.

Por Paulo Rolim

Imagens: Divulgação Divino Arbués

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Comments (2)

  1. Cara, que história bonita de vida!
    Li cada linha com muita atenção. Parece que eu estava numa barraca coberta de palhas, bem fresquinha, lá no Peixe, ouvindo atento esse grande artista do Centro-oeste brasileiro.
    A parte dos festivais mexeu comigo. Lembrei-me dos festivais de Silvânia (PALAS, FESMI, dentre outros).
    Outra coisa marcante para mim, foi ele relembrar o Projeto Rondon. Vi-me, ainda criança, brincando de “gincana” com os monitores do mesmo, no estádio Caixetão, em Silvânia. E as amizades que fez com gente do quilate de Almir Sater? Maravilha!
    Parabéns meu amigo Paulo Rolim, por nós trazer um pouco desse poeta/músico raiz e verdadeiro.

    Abraço a todos.
    Luzo Gonçalves dos Santos
    Peixe – TO e Silvânia – GO

  2. Parabéns pela entrevista, e claro ao artista e sua grande contribuição a cultura.

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