OPINIÃO

CRIANÇAS AUTISTAS: COMO LIDAR EM TEMPOS DE DISTANCIAMENTO SOCIAL

Terapeuta orienta como proceder com crianças autistas em tempos de pandemia e distanciamento social

 

A necessidade de distanciamento social como forma de prevenção à pandemia causada pelo Covid-19 trouxe uma série de mudanças abruptas na rotina das pessoas, forçando-as a uma nova e nada fácil readaptação em seu cotidiano.

De repente, a família se vê às voltas com um conjunto de situações e termos outrora pouco conhecidos como “home working” para os adultos e “homeschooling” para crianças e jovens, o que levou muitas famílias a convivência no lar em período integral. Haja jogo de cintura para lidar com tudo isso! E é justamente sobre essa questão da convivência em período integral que quero abordar.

Se já é difícil lidar com os pequenos nessa “quarentena”, imagine como será para as famílias que têm entre seus membros crianças atípicas, como é o caso dos portadores de TEA –  Transtorno do Espectro Autista, ou simplesmente, autistas.

O autismo é uma realidade que afeta uma a cada cinquenta e quatro pessoas nascidas, segundo dados de Abril/2020 do CDC – Center of Disease Control and Prevention (CDC, sigla em inglês para Centro de Controle e Prevenção de Doenças), e caracteriza-se pela ausência ou dificuldades em comunicação e interação social e pode vir ainda com comportamentos repetitivos, além de interesses restritos. Crianças autistas têm uma grande dificuldade adaptativa a mudanças repentinas, e esse isolamento é campo fértil para comportamentos disruptivos.

Mas, o que fazer para que esses problemas não ocorram?  Primeiramente, é necessário que pais e cuidadores tomem uma série de atitudes para deixar a rotina dessa criança o mais funcional possível. Além disso, é muito importante conversar com os terapeutas que acompanham a criança e solicitar que elaborem um plano de trabalho domiciliar, caso ainda não tenha. É importante lembrar que cada indivíduo tem suas peculiaridades e particularidades, e no autismo não existe uma regra linear, que se aplique a todos. Tudo deve ser personalizado em razão de seu espectro. Porém, respeitadas essas individualidades, quero sugerir algumas ações, que podem tornar a rotina da criança mais funcional, independentemente do nível de autismo, evitando assim comportamentos inadequados.

Antes de tudo, é muito importante saber que a criança autista, ou portadora do TEA, tem necessidade da previsibilidade, ou seja, de ser comunicada com antecedência sobre mudanças ou alterações na rotina, que acontecerão no dia e até na semana. Você que é pai, mãe ou cuidador dessa criança obviamente já foi orientado e sabe a melhor forma de se comunicar com ela. Dessa forma, se alguns compreendem melhor através de estímulos e material visual, importante que para estes sejam apresentadas informações através de imagens. Já outros, outros que absorvem bem através da linguagem falada, com uma conversa curta. E assim por diante.

É importante listar com antecedência a rotina dessa criança utilizando imagens que representem essas atividades, como por exemplo escovar os dentes, tomar café, jogar uno, brincar de bola e outros.

Organizar essa sequência na vertical e com imagens vai situar bem a criança e o cumprimento será tranquilo. A cada vez que fizer uma das atividades, retira-se do mural aquela imagem, explicando para a criança que aquela rotina foi cumprida e o próximo passo será a atividade seguinte.

Algo que merece bastante atenção é o foco em atividades que sejam prazerosas e que contribuam para o desenvolvimento da criança. Nesse contexto, um bom investimento são atividades escolares, jogos e pinturas, sempre associando a habilidade que ela precisa desenvolver com sua preferência.

Oportunizar a participação em atividades domésticas também é uma boa pedida. Importante que sejam atividades simples e compatíveis com a capacidade de execução, como por exemplo ajudar a mamãe ou o papai no ato de guardar as roupas na gaveta.

Este é um bom momento também para se trabalhar as AVD’s, ou atividades de vida diária, que têm como objetivo estimular a independência da criança.

E mesmo com essas dicas, é fundamental os pais ou cuidadores estarem em constante contato com os terapeutas da criança, para que possam receber esse acompanhamento que nesse período podem e devem utilizar a tecnologia, acompanhando online a adequação dessa rotina e mapeando os resultados.

Não tenho dúvida que esse momento difícil passará, e o retorno às terapias de forma tradicional e presencial nos consultórios voltarão a ser rotineiros, como antes. Enquanto isso, deixo aqui para reflexão uma famosa frase, cuja autoria desconheço: “Se você não pode fazer tudo, faça tudo que puder”.

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Benilde Miranda – Psicopedagoga Clínica, Terapeuta Especialista em Autismo.

 

 

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